Luiz Maibashi Economista · construo e meço sistemas de IA

O método

Escrever código ficou barato. O que continua difícil é entender o problema e conseguir defender a própria decisão depois. As seções abaixo mostram como eu transformo isso em rotina: um ciclo de sete etapas e sete princípios, cada um testado num projeto de verdade.

o ciclo

Sete etapas, que se repetem

As palavras sublinhadas no texto do site têm uma explicação rápida. Toque nelas.

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ETAPA 1 / 7

Captura de material bruto

Tudo que eu leio, assisto ou estudo entra primeiro numa caixa de entrada, sem nenhum tratamento. Ainda não é conhecimento, é só matéria-prima na fila. Se for material de curso, ele só sai dessa caixa depois que eu escrevo um resumo com as minhas palavras. Ler o resumo pronto da máquina dá a sensação de ter aprendido sem ter aprendido.

Clique nos números para percorrer o ciclo.

a base

Não é conversa, é arquivo

A parte cara de trabalhar com IA não é o que ela escreve. É o que eu preciso reexplicar antes: o que já foi decidido, qual conceito se aplica, onde o projeto parou. Aqui isso é arquivo versionado, lido na mesma ordem toda sessão. No dia em que eu trocar de assistente, o que ele precisa saber já está escrito.

AGENTS.md na raiz da base O contrato de operação que postura assumir, o que contestar, onde não encostar sem aval. INDEX.md o mapa das frentes O menu, não o conteúdo uma linha por frente aberta. Nada além disso é carregado. frentes/<nome>.md só a escolhida Abre uma frente só o estado daquele trabalho, com o próximo passo escrito. durante o trabalho regras e rotinas A regra entra com o arquivo tocou num arquivo de dados, as regras de dado chegam junto. frentes/<nome>.md escrita de volta Encerra escrevendo só na frente tocada, para sessões paralelas não se atropelarem.
Nenhuma etapa depende de eu explicar de novo. O protocolo, o mapa e o estado de cada frente são arquivos de texto versionados no Git, lidos na ordem.

Um protocolo só, que qualquer ferramenta lê

Um arquivo na raiz define o contrato de operação: que papel o assistente assume, em que ponto ele tem obrigação de me contestar, como traduzir decisão técnica em custo e risco, e onde ele não encosta sem aprovação. Nada disso é escrito para um assistente específico: trocar de ferramenta custa apontar para o mesmo texto, não reescrever o método.

O índice primeiro, o conteúdo só quando escolhido

Passado certo ponto, a máquina começa a perder o que foi dito no começo da conversa. Então o assistente abre um índice com uma linha por frente de trabalho, e só abre o arquivo da frente que eu escolher. Carregar tudo "para ter contexto" é o que faz a resposta piorar justamente no trabalho mais longo.

A regra chega junto com o arquivo

As regras de tratamento de dado não ficam num documento que alguém precisa lembrar de abrir. Elas entram sozinhas quando o assistente toca num arquivo de dados: não usar informação que só existiria depois da previsão, não preencher buraco sem justificar, não deixar dado pessoal vazar. Regra que depende de memória humana não chega ao terceiro mês.

Conceito indexado pelo gatilho, não pelo resumo

O índice de conceitos não guarda a explicação, guarda quando usar cada um. Uma linha por conceito, no formato "se você está diante disto, leia aquilo". Antes de decidir arquitetura em projeto novo, essa é a primeira consulta: uma leitura curta em vez de abrir sessenta arquivos.

O estado do trabalho sobrevive à sessão

Cada frente aberta tem um arquivo com o próximo passo escrito de forma acionável, não um resumo do que já aconteceu. Encerrar o trabalho atualiza só a frente que foi tocada, então duas sessões em paralelo não se sobrescrevem. É assim que o trabalho passa de uma máquina para a outra sem eu reconstruir contexto de cabeça.

A rotina dispara sozinha, ou é deletada

Decisão de arquitetura não óbvia vira registro versionado sem eu pedir. Trabalho não trivial gerado por máquina passa por especificação, revisão do que mudou e trilha de evidência antes de entrar. Antes de propor automação nova, a pergunta é qual sinal barato ela vai monitorar: sem sinal, não entra.

a auditoria

O método se audita

A base não audita só projeto. Ela audita a si mesma: protocolo que não produz nada é apagado, checagem barata roda sem gastar IA, e o agente que decide sobre crédito é conferido por uma função separada, não pelo próprio parecer.

Protocolo sem artefato em 30 dias é apagado

Toda regra que eu escrevo pra mim mesmo entra numa lista. Passados trinta dias sem produzir nenhum artefato, ela vira automação de verdade ou sai da lista. Instrução que depende só de eu lembrar não sobrevive.

prova, na própria base

Dos cinco rituais escritos no protocolo cognitivo da base, hoje só um é obrigatório em toda decisão técnica não óbvia: o quê, por quê, como. Os outros quatro ficaram como opcionais, não como obrigação esquecida.

Checagem sem IA faz o trabalho barato

Regra herdada sem revalidar o motivo, pasta redundante, revisão de conceito vencida: isso é sinal barato, que um script resolve sem gastar um token de modelo nenhum.

prova, na própria base

Seis checagens rodam sozinhas no início de cada sessão, todas sem IA. Uma delas trava o próprio commit: se o texto do commit denuncia que foi editado por IA, ele não entra no histórico.

O agente que audita o agente

Um agente que decide sobre crédito não pode ser avaliado só pelo parecer que ele escreve. Ele também precisa provar que usou as ferramentas certas antes de decidir.

prova, na própria base

No projeto de crédito, uma função separada confere se o agente chamou cada ferramenta obrigatória antes do parecer. O próprio código documenta o ponto fraco: se uma ferramenta nova entrar e a lista não for atualizada, a checagem passa calada, sem alarme.

a tese

Por que o método existe

Escolho onde um modelo de linguagem entra no trabalho. Nenhuma resposta dele chega a uma decisão minha sem passar pelas três checagens da abertura, o mesmo diagrama de lá.

resposta da IA Medição onde ela erra Régua ela bate a regra simples? Rastro quem revisou o quê decisão
as três checagens, de novo aqui
Delegar uma tarefa para a IA ↑ Entrega melhora sai mais rápido com menos erro grosseiro ↓ Aprendizado piora eu paro de treinar o raciocínio sozinho

Delegar melhora a entrega e piora o aprendizado. O método existe por causa disso.

Então eu trato a parte de executar como commodity, e protejo o que é escasso: entender o problema a fundo, e conseguir auditar a minha própria decisão depois.

Por isso uma ou duas frentes por mês ficam marcadas como proibido usar IA. Não é economia, é o oposto: eu escrevo o código sozinho, de propósito, nas habilidades que quero manter, porque um assistente que sempre acerta é também um assistente que nunca me deixa errar a tempo de aprender com isso.

os princípios

Sete, cada um com uma prova num projeto

01

A régua é a regra simples, e o número não se mexe depois de visto

Antes de treinar qualquer modelo, eu escrevo a regra mais boba que resolve o mesmo problema, em série temporal geralmente "amanhã é igual a hoje". E depois de ver o resultado, não volto para ajustar o experimento até o número melhorar.

02

A pergunta que insiste: rigor em qual eixo? o que ficou de fora?

Quando eu sou muito rigoroso num ponto (a conta econômica, o método estatístico), fica a sensação de que revisei tudo, e eu paro de olhar a qualidade do dado ou se aquilo é viável. Resposta rápida e bem arrumada sobre um trabalho que devia ser demorado é o sinal para eu insistir: "me diga o que ficou de fora", não "está tudo coberto?".

03

O teto antes do prédio

Antes de construir qualquer coisa que decide sobre um grupo difícil (a zona de dúvida de um modelo, uma fila de casos para revisão manual), eu meço primeiro o acerto máximo possível naquele grupo com o dado que já tenho. Quando você separa os casos difíceis pela incerteza do modelo, está tirando de lado justamente os casos onde as variáveis fortes funcionam. Sobra o quase imprevisível.

todos os pedidos que chegam O modelo resolve a maioria sozinho renda, dívida e histórico já separam quem paga SOBRA A ZONA DE DÚVIDA exatamente onde essas variáveis não decidem É aqui que o agente decidiria teto medido: 0,56 (0,50 é jogar uma moeda)
O filtro que separa os casos difíceis é o mesmo que joga fora as variáveis capazes de decidir. Por isso o teto se mede antes de construir.
04

Premissa só vira medição quando o dado mede a coisa certa

Toda premissa com número eu confiro contra o dado que tenho. Se o dado mede uma população diferente da que interessa, eu desfaço a substituição e deixo a função no código marcada como experimento que não deu certo. O que não dá para medir vira premissa declarada, com o aviso à vista.

05

Erro vira registro na hora; padrão que se repete duas vezes vira regra

Erro que eu cometo durante o trabalho eu anoto em uma linha, na hora. Quando fecho um projeto, cada dívida técnica passa por uma triagem: ou é problema só daquele projeto, ou é uma falha de método que vira regra para todos os próximos.

06

A fricção fica antes de gerar, não depois

Antes de rodar uma medição ou soltar um agente, eu escrevo o número que espero e o caminho que imagino. Se o resultado vem diferente, eu paro e descubro se o erro foi meu ou da máquina, em vez de engolir a resposta.

07

Se não dá para escrever o porquê de forma simples, você não entendeu o trecho

Antes de cada pedaço de lógica que importa, o comentário no código diz duas coisas: o que aquilo faz tecnicamente, e qual número, dor ou custo de negócio justifica aquela linha. A meta é um gestor conseguir auditar as regras de negócio lendo só os comentários, sem saber ler o código.